Misture a dor e a alegria
Vítima
de erro médico decidiu seguir em frente e superar suas dificuldades
Por
Manoela Tkatch
Nascida em Florianópolis,
Maria Dorvalina Pereira é a mais velha entre quatro irmãos. Se mudou para Curitiba
aos 7 anos, porque seu pai encontrou um emprego que daria uma vida melhor a sua
família.
Começou a trabalhar aos 13
anos em uma loja, como balconista. “Um amigo do meu pai precisava de uma pessoa
para ajudá-lo, como na época isso não era ilegal, eu comecei a trabalhar cedo”.
Agora, com 70 anos e aposentada, destina parte do seu tempo à grupos de idosas,
locais que faz e ensina técnicas de crochês e tricô.
Aos 52 anos, quando saía de
casa, foi vítima de um infarto. Descobriu que possuía arritmia cardíaca. Condição
que consiste na mudança dos batimentos do coração que, além de causar a
aceleração do coração, causa desconforto na pessoa.
Para tratar esse problema, o
médico, o qual ela não se recorda o nome, informou que um cateterismo deveria
ser realizado. “Não sabia ao certo o que era esse exame e como não conhecia
ninguém que tivesse realizado, fiquei com medo”, comenta a aposentada.
Cateterismo,
resumidamente, pode ser definido como um procedimento em que um tubo fino é
inserido no vaso sanguíneo do braço ou da perna do paciente. Ele é realizado
para diagnosticar ou tratar doenças cardíacas.
Em
1982, iniciou a carreira de professora de tricô e crochê no Instituto de
Educação do Paraná. Após alguns meses na profissão e mesmo já tendo realizado
um cateterismo, o médico informou que novamente ela seria submetida ao
procedimento. “Quando minha mãe foi novamente fazer o cateterismo, nós sabíamos
como funcionava a técnica e por ser um novo médico, ficamos confiantes que
agora ela melhoraria”, comenta Cristiane Pereira, segunda filha de Maria.
Semelhantes
as outras vezes, seu marido, falecido há pouco tempo, a levou ao local que
seria internada e, por precisar trabalhar o dia todo, voltaria quando o
procedimento tivesse sido realizado. “Quando minha irmã foi internada, não
tínhamos as tecnologias de agora, foi há 22 anos. Lembro que quando cheguei no
Hospital Cajuru, ela já tinha saído da sala de cirurgia, meu cunhado me olhou preocupado
e falou que o braço dela estava parcialmente inutilizável”, relembre Sônia Regina,
irmã mais nova da Maria.
“Eu só fiquei sabendo que algo
tinha dado errado, dois dias depois do procedimento, quando meu pai teve
coragem de levar eu e meus irmãos para ver a mãe. Quando cheguei lá me
assuntei, o braço dela estava roxo de uma maneira que nunca tinha ficado”,
relembra Cristiane.
Durva, como carinhosamente é
chamada pela família, não notou que o braço estava diferente. “O médico falou
que era normal e que eu apenas deveria passar uma pomada, só entendi o que ele
estava falando quando ele me deu alta para ir para casa”. Quando saiu do quarto
que estava internada, Maria percebeu que seu braço tinha escurecido e que uma
grande quantia de sangue escorria pelo braço.
Uma biopsia foi realizada e o
resultado confirmou, a veia principal do braço tinha sido prejudicada. “Em
momento algum o médico falou que foi erro dele”, afirma Sônia.
Com a intenção de devolver
integralmente os movimentos ao braço de Maria, após alguns meses, o médico
decidiu que faria outro procedimento cirúrgico. “Foi retirado 12 cm de nervo da
minha perna para colocar no meu braço e devolver meus movimentos”, explica
Maria.
Novamente, outro erro. Nada
mudou. O braço continuava sem sua movimentação completa. O médico optou por não
mexer mais no braço da paciente e dar o caso por encerrado. “Quando percebemos
que ele não faria mais nada, procuramos um advogado para processar ele”,
relembra a filha da vítima.
De acordo com o Superior
Tribunal de Justiça (STJ), só entre os anos de 2010 e 2014 o número de
processos movidos por erro médico aumentou em 140%, chegando a marca de 626
processos.
Neste caso, o processo não
aconteceu. Maria falou que não queria que processassem ele. Para ela, todo ser
humano está sujeito ao erro. O pai dela a ensinou isso, todos erram, temos que
saber perdoar. “Eu estava assustada com tudo, não queria ficar revivendo essa
parte da minha vida”.
Agora em 2017, ganha sua renda
com trabalhos manuais. Alguns dias não consegue mexer o braço normalmente, mas
nada que uma massagem não melhore. De acordo com ela, não vai ser o braço que
deixará ela perder bons momentos da vida.
Mas quando questionada como,
na época com 55 anos, conseguiu seguir em frente ao ver o culpado por sua
parcial invalidez sair impune do acontecimento, o rosto que carregava uma
expressão fechada, abre um sorriso e fala “com muita reza, eu precisava seguir
em frente pela minha família. Não tinha motivos para ficar brava, eu estou viva
ainda”.
E então, nesse momento, me vem
à cabeça os versos de Milton Nascimento. “Quem traz na pele essa marca, possui
a estranha mania de ter fé na vida (...) Maria, Maria”.
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