Os extremos da luta para uma iniciante
O Muay thai é uma das artes marciais inclusas nas lutas de Artes
Marciais Mistas, o MMA.
Por Manoela Tkatch
Chego
à academia e recebo sorrisos de homens com dois metros de altura e músculos
maiores que meus braços e pernas juntos. A recepcionista me mostra as
instalações, explica que as lutas ocorrem no segundo andar e que poderia me
trocar e tomar um banho nas dependências do local. O treino de muay thai demoraria 40 minutos.
A
técnica, que também é conhecida como “Boxe Tailandês”, significa arte livre e
segue a doutrina budista tanto em suas saudações, quanto em seus costumes. Além
de golpes com braços e pernas, a arte busca a flexibilidade, agilidade e o
autoconhecimento.
Curitiba
é conhecida como a capital das lutas. Grandes nomes como Anderson Silva,
Mauricio Rua, Wanderlei Silva e Cris Cyborg iniciaram seus treinos na capital
paraense, ou tiveram na cidade um momento importante da sua carreira. Curitiba
possui mais de 20 academias com foco no muay
thai.
Chego
ao tatame – local do treino – e está vazio. Ao fundo da sala, que deve medir o
mesmo que uma quadra de futsal, analiso um octógono de MMA e um ring de boxe.
Alguns
minutos depois, uma menina de cabelo curto e enrolado saí de um quartinho ao
lado esquerdo do tatame. Ela me pergunta com uma voz sonolenta que horas é o
treino. Digo que falta meia hora. Ela volta para o quarto e fecha a porta.
Minutos depois a menina volta.
“Nossa guria, me chamo Karen, nem perguntei seu
nome. ”
Em
uma breve conversa descubro que ela treina muay
thai há um ano e mora na região metropolitana de Curitiba. Nos dias em que
treina, terças e quintas, fica alojada no quartinho ao lado do que ela diz ser
sua segunda casa. A academia disponibiliza esses locais às pessoas que, assim
como Karen, não deixam que a distância atrapalhe seu sonho de ganhar a vida
lutando.
Nossa
conversa é interrompida por duas mulheres. Silmara e sua filha, Estefanie,
treinam juntas há um ano. A mãe faz a luta para emagrecer e parar de ter medo
das coisas. Já a filha, para participar de competições.
“Às vezes as pessoas vêm aqui e não sabem que
nós somos parentes. De fora, parece que estamos brigando de verdade, mas temos
uma conexão, vejo no olhar dela quando um golpe mais forte vai vir.”
Percebo
que elas vão começar a lutar e me afasto do tatame. Karen pergunta se estou
confiante para lutar e digo que é minha primeira aula. Silmara, a mais velha,
se oferece para me ensinar os princípios da luta. Aceito, feliz por não ter
sido excluída da atividade. Elas me entregam um par de luvas de boxe.
“Vou te falar a verdade. Todo primeiro aluno
usa essa luva, ela está fedendo muito, então se for ficar mesmo, compre seu
equipamento. ”
A
mulher me ensina técnicas como jab,
soco com a mão que está à frente da guarda. Direto,
soco com a mão que está atrás da guarda. E cruzado,
soco cruzado com a mão que está na frente. Todos com alvo no queixo do
adversário. Neste momento, percebemos minha primeira limitação.
Há
cerca de 15 anos quebrei meu braço. Fiz uma cirurgia e coloquei fios de aço
para reconstruir meu cotovelo, que separou quando eu caí da cama-elástica. Meu
soco com a mão esquerda é fraco e não consigo realizar movimentos rápidos.
Silmara percebe meu desconforto e comenta que é melhor nos concentrarmos no meu
lado mais forte.
Durante
vinte minutos, realizamos a sequência “jab, direto, cruzado e anda três
passos”. Minha mão começa a suar e percebo que a luva está cheirando a chulé e
vomito.
As
meninas param o treino no momento que um homem alto e magro chega. Junto dele
alguns alunos se preparam para aula, o treino será misto. Nesta luta, não há
diferença entre treino para mulheres ou para homens. O professor se aproxima e
me apresento.
“Gostei de você, só por isso você vai
participar do mesmo treino de todos. Vai ter que aguentar o ritmo de pessoas
que lutam há um ano. ”
Começamos
correndo em círculo por dez minutos. Nos últimos cinco minutos, sinto que vou
desmaiar. Minha boca secou e começou a formigar,
minhas mãos, que ainda
cheiram a chulé e vomito, estavam geladas. A corrida acaba o treino de muay thai começa de verdade.
O
professor, que se chama Marcos, grita “duplas e colchonete”. Como qualquer
aluna nova, fico observando quem sobra. Uma mulher loira tenta achar alguém,
mas estão todas formadas. A única sobrando sou eu, pela sua reação, consigo ver
que ela não está muito animada em treinar comigo.
Marcos
se aproxima e explica que vou apenas treinar chute e não posso esquecer o mais
importante: a mão de guarda que deve ficar ao lado contrário do golpe. A mulher
loira, que não se preocupou em se apresentar, não tem paciência para meus erros
e pede ajuda ao professor para não perder seu dia de treino. A cada
desequilíbrio meu, era uma revirada de olhos dela.
Após
uma sequência de chutes, o treinador grita “chão, 100 flexões”. Estou com tanto
calor, que só consigo sentir o cheiro horrível que está na minha mão. Os
últimos minutos de aula são alternados entre chutes e abdominais dos mais
diversos tipos.
O professor
reúne todos e agradece por ninguém ter se machucado naquele dia, pela amizade e
por todas as oportunidades.
“Repitam comigo: se Jesus está comigo, ninguém
pode me vencer. Sawadee. ”
Recebo
sorrisos cansados. Minha única preocupação no fim da aula era o cheiro forte da
minha mão que não me deixava respirar.
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